A Capoeira Angola

Texto de Mestre Fuinha

Mestre Pastinha Vicente Ferreira Pastinha 05/04/1889 - 13/11/1981
Mestre Pastinha
Vicente Ferreira Pastinha
05/04/1889 – 13/11/1981

A Capoeira Angola é uma outra denominação que a capoeira adquiriu com o passar dos anos. Tal qual a Capoeira Regional, ela é fruto daquela capoeira primitiva que não tinha sobrenome, vamos dizer assim. Um de seus principais mestres é o Mestre Pastinha, Vicente Ferreira Pastinha (1889 – 1981). Além dele tivemos inúmeros outros mestres tão quão importantes quanto ele, como Mestre Canjiquinha, Mestre Caiçara, Mestre Waldemar da Paixão, Mestre Traíra e tantos outros.

Com relação ao nome Capoeira Angola, Mestre Pastinha (1964, p.29) conta: “o nome da Capoeira Angola é conseqüência de terem sido os escravos angolanos, na Bahia, os que mais se destacaram na sua prática.”

Por volta de 1940, Mestre Pastinha, ao regressar de seus afazeres na Marinha Brasileira, retorna a Salvador e recebe dos capoeiristas locais a missão de organizar a capoeira. Nesta época o Mestre Bimba já havia criado a capoeira regional e os demais capoeiristas sentiram a necessidade de se unirem em torno de um nome e de uma organização. Desta maneira, Mestre Pastinha fundou o Centro Esportivo de Capoeira Angola. Estipulou o uso de um uniforme que correspondia ao seu time do coração, o Ipiranga. Também criou formas e métodos de treinamento e ensino e, desta maneira foi o principal divulgador da Capoeira Angola. Dentre inúmeros alunos temos os respeitáveis Mestres João Grande e João Pequeno, hoje os capoeiristas mais antigos do mundo.

Apesar das diferenças referentes ao estilo do jogo, tanto a Capoeira Regional quanto a Capoeira Angola e o próprio capoeirista, procuram manter as tradições e fundamentos da capoeira. Principalmente no que tange ao comportamento do capoeirista, na roda e fora dela. Busca-se preservar o respeito aos mestres e aos instrumentos, em especial o berimbau – que dita o ritmo de jogo a ser executado. Tanto Mestre Pastinha quanto Mestre Bimba e muitos outros trataram de divulgar, aprimorar e aperfeiçoar seus ensinamentos, suas apresentações e suas rodas. Todo esse trabalho contribuiu para a popularização da capoeira para toda a sociedade. Segundo Mestre Noronha (1993,p.120):

“São eles, juntos com outros de grande importância, que vão reorganizar a prática, fundar a base para o rumo da capoeira na contemporaneidade (processo que Bimba desenvolveu com rupturas ao criar a Regional). A ação desenvolvida por eles foi no sentido de assegurar a continuidade da capoeira; valorizando-a como uma expressão cultural de ‘real grandeza’ para o mundo inteiro; de organizá-la jurídica e administrativamente; disseminando-a através de centros próprios (academias de capoeira) e nos educatórios do Brasil e nos quartéis; – nos meios sociais.”

A popularização da capoeira também proporcionou uma bipolarização entre Angola e Regional. Iniciou-se uma disputa por espaço em apresentações artísticas e uma interminável discussão a respeito da legitimidade da Capoeira de Angola e da Capoeira Regional. Mestre Canjiquinha (1989, p.21), ao referir-se às duas modalidades de capoeira existentes, deixa clara sua posição de capoeirista:

“Não existe capoeira regional nem angola. Existe capoeira. Apelidaram capoeira de angola porque foi praticada, aqui no Brasil, por volta de 1855 pelos escravos na sua maioria angolanos.
Então eles ficavam na senzala treinando. Eles viram que dava para se defender com ela. Então, botaram o nome de capoeira angola. MAS A CAPOEIRA É BRASILEIRA. O ÚNICO ESPORTE BRASILEIRO É A CAPOEIRA. EU SOU CAPOEIRISTA. NÃO SOU NEM ANGOLERO NEM REGIONAL (destaque do autor).”
Referências Bibliográficas:

ANANDE, das Areias. O que é Capoeira. 4ª ed., editora Tribo, 1983.

CAPOEIRA, Nestor, 1946. Capoeira: os fundamentos da malícia. Rio de Janeiro: Record, 1992.

COUTINHO, Daniel. O ABC da Capoeira Angola: Os manuscritos do Mestre Noronha. Brasília, Centro de Informação e Documentação sobre Capoeira, 1993.

MACACO, Mestre. Apostila do “I Ciclo de Estudos Ginga. Terra: A Capoeira em questão – Belo Horizonte. Ginga: Ginástica e Capoeira,1985.

PASTINHA, Vicente Ferreira. Capoeira Angola. Ecola Gráfica Nossa Senhora de Lorêto, Salvador,1964.

REGO, Waldeloir. Capoeira Angola: ensaio sócio-etnográfico. Editora Itapuã, Salvador, 1968.

RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. Companhia das Letras, São Paulo, 1922.

SOARES, Carlos Eugênio Líbano. A negregada instituição: os capoeiras no Rio de Janeiro 1850-1890. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura. Departamento Geral de Documentação e Informação Cultural. Divisão de Editoração. 1994.