Capoeira Primitiva

Texto Mestre Fuinha
Grupo Cordão de Ouro Belo Horizonte/MG

A Capoeira tem sua origem na cultura brasileira que vinha se formando nos finais do século XVII. Criada pelos negros africanos aqui escravizados, sua prática se tornou difusa, englobando toda classe oprimida da época: escravos e trabalhadores assalariados.

O indivíduo que participava da capoeira, era trabalhador ou escravo, além de ter familiares que participavam também de outras manifestações negras. Era um indivíduo que transitava e participava de diversos grupos culturais. Muitas vezes era capoeirista e, ao mesmo tempo gostava de samba de roda e candomblé. Com os violeiros improvisavam versos em repentes intermináveis, duelavam em cantigas emboladas e carregadas com informações pertencentes à cultura popular que aflorava.

Os capoeiristas se reuniam em praças e pontos predeterminados para suas rodas, que consistiam em espaços de entretenimento e de sociabilidade. Muitos se encontravam exclusivamente nas rodas de capoeira. Outros encontravam ali oportunidades de fazer amigos. Muitas amizades começadas nas rodas acabavam durando uma vida inteira.

O ambiente de roda, o ritual, com a musicalidade característica transformava aquele momento em uma manifestação cultural. Toda a população tinha acesso e era atraída para as rodas de capoeira. Costumava-se lotar praças de grande movimentação em rodas que chegavam a durar mais de quatro horas. Os mestres se sucediam no jogo da capoeira, em duelos corporais em que o mais experiente, esperto, desenvolto e ladino, vencia, sem necessariamente derrotar o adversário. Eram companheiros, eram homens, respeitavam-se. Pertenciam a uma mesma esfera social, compartilhavam dos mesmos problemas, eram vítimas do mesmo preconceito e violência, enfrentando as mesmas dificuldades sociais da época.

O negro sempre utilizou suas manifestações culturais, sejam as trazidas da África ou as desenvolvidas no Brasil, como instrumento aliviador das pressões do sistema colonial. Carregadas de ludicidade, tais manifestações funcionavam como expressões do sentimento de liberdade ansiado pela população oprimida, uma válvula de escape.

Já o aprendizado da capoeira acontecia nos guetos, becos e terreiros baldios. O quintal deste ou daquele mestre funcionava como academia, onde se ensinava os movimentos básicos a seus alunos. Estes aprendiam principalmente de oitiva. Educavam-se nas rodas e sob coordenação e auxílio dos mestres, aperfeiçoavam seus conhecimentos.

Cada mestre pertencia a uma genealogia de capoeira originada em algum negro escravo ou ex-escravo. O ensinamento da destreza corporal, luta e dança capoeira, é pautado pelas particularidades e pelos interesses do mestre, também responsável pela manutenção das tradições e ensinamentos por ele aprendidos.

Em Santo Amaro da Purificação/BA existiu um grande nome: Manoel Henrique Pereira, o Besouro Mangangá ou Besouro Cordão de Ouro. Nasceu em 1897 e era um famoso capoeirista. Em torno do seu nome várias lendas se misturaram aos fatos reais. Tinha o corpo fechado, valentão e destemido, não gostava de polícia tendo se envolvido vitoriosamente em diversos embates com militares. Foi morto em uma emboscada em Maracangalha, em 1924 tendo sido perfurado por uma faca de Tucum.

Besouro foi um dos inúmeros capoeiristas de uma época em que a capoeira não tinha rótulo ou especificações, era simplesmente, dentro da complexidade contextual, sócio-cultural brasileira, a capoeira.

 

Referências Bibliográficas:

ANANDE, das Areias. O que é Capoeira. 4ª ed., editora Tribo, 1983.

CAPOEIRA, Nestor, 1946. Capoeira: os fundamentos da malícia. Rio de Janeiro: Record, 1992.

COUTINHO, Daniel. O ABC da Capoeira Angola: Os manuscritos do Mestre Noronha. Brasília, Centro de Informação e Documentação sobre Capoeira, 1993.

MACACO, Mestre. Apostila do “I Ciclo de Estudos Ginga. Terra: A Capoeira em questão – Belo Horizonte. Ginga: Ginástica e Capoeira,1985.

PASTINHA, Vicente Ferreira. Capoeira Angola. Ecola Gráfica Nossa Senhora de Lorêto, Salvador,1964.

REGO, Waldeloir. Capoeira Angola: ensaio sócio-etnográfico. Editora Itapuã, Salvador, 1968.

RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. Companhia das Letras, São Paulo, 1922.

SOARES, Carlos Eugênio Líbano. A negregada instituição: os capoeiras no Rio de Janeiro 1850-1890. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura. Departamento Geral de Documentação e Informação Cultural. Divisão de Editoração. 1994.

 

Cenas do filme Besouro, de João Daniel Tikhomiroff
Buena Vista Internacional