Da marginalidade à legalização

Texto Mestre Fuinha
Grupo Cordão de Ouro Belo Horizonte/MG

Despontando principalmente no Rio de Janeiro, Recife e Salvador, no início do século XIX, “a capoeira, antes de receber o status de expressão cultural, sofreu o estigma do crime.” (Soares,1962, p.07)

Por ser uma das expressões culturais dos negros, a capoeira passa por uma época de enorme repressão. O General Deodoro aprovou o Código Penal de 1890 que proibia a prática de capoeira. Centenas de pessoas foram presas por estarem praticando-a na rua: “Foi preso Joaquim Benguela, escravo de Antônio Romão, preso pela sentinela de Real Paço por se dizer que estava jogando capoeira e se atracar com a mesma sentinela.” (Soares,1962, p.31)

Como este caso, Soares (1962), apresenta inúmeros outros relatos da casa de detenção do Rio de Janeiro, onde a perseguição à capoeira aconteceu de forma mais violenta. Pelo que consta, não era muito difícil se reconhecer um capoeirista de final de século XIX.

“Trajando-se de branco, com calça pantalona boca de sino que cobria todo o calcanhar, camisa comprida por cima da calça, tipo abadá, quando estavam de chinelos de chargrim, ou camisa social por dentro das calças e sapato bico fino, quando usavam o impecável terno de linho branco, o capoeira ainda usava, enfeitando, um lenço de seda pura no pescoço, protegendo o colarinho impecável do suor. Esse lenço tinha uma segunda função, que era a proteção contra a navalhada, visto que dificilmente uma lâmina corta seda pura deslizando por sua superfície.[…] Para qualquer eventualidade mais séria, o capoeira tinha como arma a navalha, ou uma faquinha feita de osso de defunto, material resistente e de fácil afiação que dificultava a cicatrização, provocando grave infecção na vítima. Também uma outra faca, feita de madeira de tucum (árvore espinhosa que produz a fruta do coco de Mané Véio, e que se acreditava possuir poderes mágicos contra mandingas)” (Anande,1983,p.31-33)

Quando a corte portuguesa se transfere para o Brasil, a repressão aumenta cada vez mais. O Rio de Janeiro, sendo a capital do Império, abrigava gente vinda de diversos lugares do interior, de Portugal e outros países.

Soares (1962) situa as origens dos capoeiristas presos no Império entre 1880 à1888: 46,7% da corte, 27,4% do interior do Brasil, 15,8% só da província do Rio, 6,8% de Portugal e 3,3% de outros países, de um total de 318.

Isso mostra que toda aquela massa pobre se relacionava nas ruas e nos guetos, onde a capoeira era quase obrigatória como instrumento de sobrevivência para a vida citadina no Rio do século XIX. “Ela era uma necessidade não apenas e tão somente dos negros, mas sim já de toda uma camada social explorada, oprimida e marginalizada.” (Anande, 1983,p 28)

Tem-se registros ainda de inúmeros capoeiristas, alguns mais célebres, pertencentes às classes mais altas da sociedade- filhos e parentes de conselheiros, viscondes, barões e nomes importantes da corte. No entanto, esta classe realmente só teve acesso à capoeira, quando ela começou a ser ensinada em academias.

Muitos dos capoeiristas presos foram para Fernando de Noronha e acabaram lutando na guerra do Paraguai 1864 a 1870. No Rio, foram travadas lutas sangrentas entre maltas de capoeira de regiões diferentes e que apoiavam partidos diferentes – quando havia um posicionamento de alguma das maltas em benefício de um partido político de sua região, ou outro. É o caso da Guarda Negra:

“Criada para salvar a monarquia e lutar contra os republicanos, os dirigentes desta guarda exploravam o sentimento de gratidão dos negros libertos. Estes negros fantásticos, em honra e gratidão a Princesa Izabel, dissolviam qualquer comício e reunião dos republicanos.” (Mestre Macaco, 1985, p.05)

A Abolição

Em 1888 a princesa Isabel assinou a Lei Áurea, abolindo a escravidão. No entanto, a abolição se fez sozinha. Toda a sociedade estava com medo de uma insurreição, e a pressão dos abolicionistas acabou culminando na liberdade. Uma liberdade questionável. “A abolição, dando alguma oportunidade de ir e vir aos negros, encheu as cidades do Rio e da Bahia de núcleos chamados africanos, que se desdobraram nas favelas de agora.” (Ribeiro,1922,p.194)

Sem um projeto social para a assimilação dessa massa de negros na sociedade, as conseqüências não poderiam ser menos drásticas:

“Os ex-escravos abandonam as fazendas em que labutavam, ganham as estradas à procura de terrenos baldios em que pudessem acampar, para viverem livres como se estivessem nos quilombos, plantando milho e mandioca para comer. Caíram, então, em tal miserabilidade que a população negra reduziu-se substancialmente. Menos pela supressão da importação anual de novas massas de escravos para repor o estoque, porque cada vez que acampavam, os fazendeiros vizinhos se organizavam e convocavam forças policiais para expulsá-los, uma vez que toda a terra estava possuída e, saindo de uma fazenda, se caía fatalmente em outra.” (Ribeiro,1922,p.221)

Isto até hoje acontece com os sem terras e bandos de miseráveis que vagam pelas estradas sendo expulsos de terras devolutas e de grandes propriedades agrárias. Mestre Anande das Areias (1983,p.30) acrescenta mais detalhes deste cenário:

“Residindo nos morros e periferias, circulando normalmente nos locais de maior movimento da cidade, como portos, estações ferroviárias, mercados e feiras, os negros mal conseguiam um trabalho que lhes garantisse a sobrevivência.”

Tudo fica muito complicado e para piorar ainda mais, a crise de desemprego que ocorre na Europa na passagem do século XIX para o século XX nos manda sete milhões de europeus (Ribeiro,1922). Em conseqüência, boa parte daquela população negra e mulata se recorre à marginalidade para sua sobrevivência (Anande,1983).

No Rio, a capoeira resistiu fugindo para os morros e deixando as ruas da cidade. Na Bahia, apesar disto, conservou-se o ritual, os aspectos festivos e lúdicos e a filosofia da capoeira, fazendo-a sobreviver ao tempo (Mestre Macaco,1985) Lá a repressão foi um pouco menor, assim como no Recife.

Com a abolição, porém sem um projeto social para a adaptação do contingente negro à sociedade, suas manifestações culturais acabaram carregando o peso da marginalidade e da discriminação – inclusive a capoeira. Somente “a partir de 1930, Getúlio Vargas libera uma série de manifestações populares, entre elas a capoeira, numa tática de liberar para controlar” (Anande, 1983, p.81), o que acaba possibilitando o acesso de uma classe mais beneficiada a estas manifestações.

Hoje a Capoeira está em outro patamar. Ela foi reconhecida como patrimônio cultural brasileiro e, mesmo antes disso, ela já havia conquistado o mundo. A capoeira está em academias, universidades, escolas públicas e particulares e é ensinada para toda a sociedade brasileira. Tudo isto graças ao esforço e à luta de inúmeros mestres que percorreram toda a história do nosso país para que a capoeira chegasse onde chegou.

 

Referências Bibliográficas:
ANANDE, das Areias. O que é Capoeira. 4ª ed., editora Tribo, 1983.

CAPOEIRA, Nestor, 1946. Capoeira: os fundamentos da malícia. Rio de Janeiro: Record, 1992.

MACACO, Mestre. Apostila do “I Ciclo de Estudos Ginga. Terra: A Capoeira em questão – Belo Horizonte. Ginga: Ginástica e Capoeira,1985.

REGO, Waldeloir. Capoeira Angola: ensaio sócio-etnográfico. Editora Itapuã, Salvador, 1968.

RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. Companhia das Letras, São Paulo, 1922.

SOARES, Carlos Eugênio Líbano. A negregada instituição: os capoeiras no Rio de Janeiro 1850-1890. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura. Departamento Geral de Documentação e Informação Cultural. Divisão de Editoração. 1994.